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09 de junho de 2011 - 03h40

A hora e a vez do aço na construção brasileira

Leveza, flexibilidade, beleza, economia e rapidez são atributos que tornam o aço opção certeira para as obras da Copa 2014 e de infraestrutura, nesse novo ciclo de desenvolvimento do Brasil

Apesar de a utilização do aço na construção civil estar associada aos conceitos de modernidade, inovação e vanguarda, traduzidos em obras de grande expressão arquitetônica, o uso de estruturas metálicas na construção não alcançou, no Brasil, o mesmo nível de projeção que conquistou em outros países. Nos Estados Unidos, os primeiros edifícios com estruturas em aço começaram a ser construídos a partir de 1870, em grandes cidades como Chicago, Nova York, Detroit e St. Louis. No Brasil, o primeiro prédio de andares múltiplos, com estrutura metálica, só foi erguido 84 anos depois, com a construção do Edifício Garagem América, em São Paulo, em 1954.

Estamos no século XXI e, apesar das comprovadas vantagens desse método construtivo, os edifícios com estrutura em aço ainda são pouco numerosos no Brasil. Trata-se de uma modalidade de construção que não “pegou” por mero preconceito ou há restrições técnicas, legais ou de disponibilidade de materiais para esse crescimento no País? Essas questões vão estar no centro das discussões que certamente acontecerão na Vila do Aço, um dos salões temáticos especiais apresentados durante a Construction Expo 2011 - Feira Internacional de Soluções para Obras e Infraestrutura, a nova feira promovida pela Sobratema, que acontecerá de 10 a 13 de agosto, no Centro de Exposição Imigrantes, em São Paulo.

Para Paulo Tomazelli, diretor executivo do Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA), não há restrições técnicas, legais ou de disponibilidade de materiais que impeçam a utilização dessa tecnologia em larga escala. O que existe é uma limitação de ordem cultural.

Ele explica que, no Brasil, até a década de 80, o uso de estruturas metálicas era pouco conhecido. “Na área da construção residencial, o assunto nem era cogitado por arquitetos e engenheiros, e muito menos pelos proprietários. Fatores histórico-culturais decorrentes da falta de produtos siderúrgicos adequados, àquela época, colaboraram com essa realidade. Dessa forma, e pelo histórico do uso de mão de obra barata no país, tipicamente usada nas construções convencionais, o concreto se tornou mais tradicional na construção civil brasileira.”

Para Luiz Carlos Caggiano Santos, presidente da Abcem, mais do que uma questão cultural e de preconceito, o nosso problema está na formação universitária, ou na falta dela.  Ele afirma que faltam cursos e ensino sobre o uso das estruturas metálicas. “Então o problema central esta na falta de mão de obra que conhece, que está treinada a trabalhar com o sistema. Nos últimos cinco anos o trabalho da Abcem foi  justamente o de levar a informação sobre a tecnologia para as universidades. O engenheiro sabe usar, calcular e produzir com o concreto, geralmente, mas não tem quase nenhuma informação sobre estrutura metálica. Hoje são poucos os profissionais que sabem projetar com estrutura metálica”, critica.

Ele cita Siegbert Zanettini como exemplo de arquiteto que estudou, pesquisou, foi atrás da informação, se inteirou e concentrou um nível de conhecimento singular nesta área. E  lembra também da sua própria trajetória: “Eu me formei há 35 anos, e na época a gente tinha 32 horas de aula em estrutura metálica, contra três anos focados no concreto, aprendendo a calcular, a trabalhar com concreto na escola.” Para ele, o cenário está mudando mas é preciso que isso seja feito com mais velocidade.

Paulo Tomazelli reconhece que ainda há muito desconhecimento, por parte das construtoras e dos empreendedores, no que diz respeito às vantagens do aço na construção civil e também ao que ele representa em termos de precisão, redução de tempo da obra com consequente redução de custos e segurança. Desconhecimento que resultou na consolidação de mitos com relação a interfaces do material, proteção contra incêndio e corrosão, entre outros. Mas acredita que tal desconhecimento vem diminuindo frente aos indiscutíveis benefícios do uso das estruturas de aço. “Felizmente, esse método construtivo vem avançando de forma incontestável como uma solução estrutural para os mais diversos tipos de prédios, quer sejam industriais, comerciais ou residenciais”, comemora.

Caggiano concorda que questões como desperdício hoje são mais  consideradas. “Nos anos 1990 nem se pensava nisso, mesmo com todas as perdas, com a mão de obra barata, a obra de concreto ficava mais barata do que a metálica em pelo menos 50%. Hoje isso mudou, a mão de obra ficou escassa e cara, os custos estão mais controlados. Mas o mercado ainda é tímido, concentrado em poucas empresas e alguns arquitetos, por isso é preciso fazer esse trabalho, levar essa cultura para as escolas, mostrar como trabalhar com o aço”, afirma.

O presidente da Abcem lembra que no mercado europeu, e principalmente na Inglaterra, bem como nos Estados Unidos, o consumo de aço para construção civil gira em torno de 100 kg per capta ao ano, enquanto no Brasil não chega a 12 kg. “Por isso qualquer profissional que se dedicar a esse assunto tem muitas oportunidades para crescer no mercado, tem muito espaço, pois esse mercado pode dobrar. As oportunidades profissionais são muitas, pois o setor como um todo tem uma falta muito grande de profissionais que entendam o setor. Praticamente não há engenheiros treinados nessa área.”

Vantagens comprovadas
Buscando eliminar as resistências culturais, o CBCA tem editado manuais sobre esses temas e publicado diversos trabalhos técnicos, que estão disponíveis em seu site. Exemplo disso é a edição do Guia Brasil da Construção em Aço, que fornece informações ao mercado sobre a cadeia de produção do aço. Em suas ações, o CBCA procura destacar as vantagens da adoção desse sistema construtivo frente ao chamado método convencional.

De acordo com Tomazelli, na construção em aço pode-se ter redução de até 40% no tempo da obra quando comparado com os processos convencionais, já que a fabricação da estrutura é feita em paralelo às fundações, permitindo o trabalho em diversas frentes de serviços simultaneamente. Há menor impacto no canteiro, comparando com a construção tradicional, pois seus componentes saem da fábrica para a obra onde a montagem é feita. “Em função da maior velocidade de execução da obra, haverá um ganho adicional pela ocupação antecipada do imóvel e pela rapidez no retorno do capital investido. O tempo economizado permite a redução de custos de financiamento e de BDI”, ressalta.

O diretor do CBCA afirma ainda que o aço garante a precisão de medidas, reduzindo desperdícios e facilitando a inserção dos demais componentes da construção. Dependendo do sistema adotado, pode atender aos mais variados tipos de terrenos com desníveis, evitando gastos com grandes movimentos de terra e aterros, portanto com pouca intervenção na natureza. Em grandes centros urbanos, com altos índices de congestionamento e dificuldade de mobilidade, permite menor movimentação de carga, auxiliando na redução de emissão de CO2. Além disso, o aço é 100% reciclável e ecoeficiente em seu processo produtivo.

“Obras feitas em aço têm menor impacto negativo sobre o meio ambiente em termos de uso de energia, consumo de matérias-primas, geração de detritos e de impactos no canteiro de obras (resíduos, emissão de poeira, tráfego e ruídos sonoros). O material economiza água, justamente no momento em que este recurso vem se tornando mais escasso. Estruturas em aço consomem apenas 6,3% do ciclo de vida total da energia de uma residência, o restante sendo consumido para climatização e iluminação. Além disso, por exemplo, 200 m2 de uma casa com estrutura em aço podem gerar apenas 1 m3 de resíduos recicláveis durante a construção” calcula o diretor do CBCA.

Outra vantagem que ele destaca é que há uma melhor organização do canteiro devido, entre outros itens, à ausência de grandes depósitos de areia, brita, cimento e madeiras, reduzindo também o inevitável desperdício desses materiais. As estruturas de aço e os sistemas industrializados complementares requerem menos transporte de entrada no canteiro de obras e quase nenhum transporte de saída, geram edifícios mais leves e com menor energia contida em sua massa total (energia necessária para gerir o edifício e suas partes), que são conceitos cada vez mais considerados nos empreendimentos urbanos. “O ambiente limpo oferece, ainda, melhores condições de segurança ao trabalhador contribuindo para a redução dos acidentes na obra.”

Tomazelli descarta a hipótese de que haja no Brasil forte resistência à construção com estruturas metálicas devido à possibilidade de colapso da estrutura frente a altas temperaturas, como resultado de incêndios severos. “Tal possibilidade vale para todos os tipos de estrutura. O projeto e execução corretos, que levam em conta as necessidades de proteção estrutural, determinam a durabilidade da construção, independente do método construtivo utilizado”, acredita.

Caggiano acrescenta que “existem normas e produtos para garantir a integridade do aço, revestimentos que garantem entre 30 minutos e 2 horas de integridade, dependendo do projeto, do custo, da necessidade, mas é possível, dando tempo de evacuar as áreas, enfim, tomando as medidas necessárias”.

Estruturas mistas
Para muitos técnicos e representantes da comunidade acadêmica, envolvida nessa discussão, a adoção de estruturas mistas seria uma alternativa para proceder uma mudança de cultura e abrir espaço para o uso de estruturas metálicas na construção no Brasil. Tomazelli compartilha dessa visão. “Estruturas mistas são cada vez mais usadas em todo o mundo e poderão sim ajudar a mudar a atual cultura de construção em nosso País.”

As estruturas mistas são formadas pela associação de perfis de aço e concreto estrutural de forma que os materiais trabalhem conjuntamente para resistir aos esforços solicitantes. Desta forma é possível explorar as melhores características de cada material, tanto em elementos lineares, como vigas e pilares, quanto nas lajes e ligações.

A utilização de elementos mistos e, por consequência, de sistemas mistos aço-concreto, amplia consideravelmente o conjunto de soluções em concreto armado e em aço. De maneira geral, a crescente utilização de estruturas mistas é atribuída a diversos fatores, entre os quais a necessidade cada vez maior de grandes áreas livres por pavimento, que resulta em grandes vãos para as vigas, acréscimo de força vertical nos pilares e um maior espaçamento entre eles.

Caggiano sintetiza o que pensa sobre o assunto em uma frase: “O aço não vive sem o concreto, a solução mista é a grande solução nessa área.”

O que se espera é que a multiplicação do emprego desse método construtivo misto possa promover uma transição saudável entre a construção convencional e processos mais modernos, principalmente neste momento em que a indústria da construção deve desempenhar um papel importante neste novo ciclo de desenvolvimento do Brasil.

A realização da Copa do Mundo de 2014 promete ser outra porta aberta para a consolidação da utilização do aço como elemento principal na construção civil do Brasil. Arquitetos, engenheiros e empreendedores têm diante de si o desafio de utilizar materiais ambientalmente corretos, que atendam às premissas da sustentabilidade, mas também econômicos e que garantam a rápida execução de projetos, sem abrir mão da segurança. As exigências da FIFA estabelecem uma lista de “metas verdes” a serem alcançadas. E a utilização do aço nas obras de construção civil permite a execução de estruturas mais leves, que exigem fundações de menor profundidade. O aço também contribui para acelerar a obra e reduz significativamente os desperdícios e a quantidade de entulhos e demais resíduos nos canteiros de obras. Por tudo isso, essa pode ser a hora e a vez do aço na construção brasileira.

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Desenvolvido e atualizado por Diagrama Marketing Editoral - Apoio editorial: Revista Grandes Construções. Reprodução apenas com permissão dos editores e com o devido crédito.

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