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08 de maio de 2012 - 22h56

Canteiros de obras modernos

Falta de mão de obra e necessidade de otimização dos recursos, com economia de custos e de tempo têm levado as construtoras a modernizar seus canteiros, com recursos da informática e da mecanização

O aquecimento da economia do País e o aumento das atividades na indústria da construção civil resultaram em um déficit significativo de mão de obra qualificada para este setor. De acordo com pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o problema afeta 69% das empresas desse segmento. No ano passado, mais de 40 mil vagas foram abertas para a construção civil somente no estado de São Paulo. E no primeiro trimestre deste ano, as ofertas de vagas já superam as 20 mil. A falta de mão de obra está forçando as construtoras a investirem na mecanização e automação dos canteiros, como forma de aumentar a produtividade.

Isso se traduz na adoção de métodos construtivos industrializados, no controle informatizado de documentos, estoques e dos recursos humanos para otimizá-los, além da aquisição de equipamentos modernos para elevação de pessoas e cargas, entre outras medidas. Historicamente, a mão de obra representa 40% do custo total da obra. Com esses recursos, a participação pode cair para a metade, em função da redução do número de trabalhadores. Pesquisa recente, realizada pela versão online da revista Grandes Construções, mostrou que quase 60% dos internautas que participaram da enquete, estão envolvidos diretamente com obras que adotam algum tipo de mecanização.

Na lista de benefícios, o fator mais apontado foi o aumento de produtividade, seguido de mais segurança e maior qualidade na obra. Empresas que investem em equipamentos para suprir falta de mão de obra conseguem alcançar redução significativa no número de trabalhadores por metro quadrado. A meta é diminuir de 10% a 20% o número de trabalhadores por metro quadrado nas obras anualmente.

Gruas, guindastes e elevadores são cada vez mais solicitados na construção de prédios verticalizados, na medida em que avançam a padronização, a pré-montagem e a manipulação de peças cada vez maiores e mais pesadas (pallets, pré-moldados, pré-montados etc.). Esse fenômeno é característico do processo de industrialização do setor. A mecanização cresce em áreas fim da construção civil, principalmente em substituição ao trabalho braçal duro ou potencialmente perigoso, como nas atividades em altura, transporte e preparação de matérias-primas, etc.

A solução agrega ainda redução do desperdício de materiais de apoio e insumos, com aumento da produtividade e qualidade.

Nas obras nos grandes núcleos urbanos, com restrições das áreas de manobra, cresce a utilização de equipamentos de pequeno porte como miniescavadeiras, minicarregadeiras, empilhadeiras, telehandlers, bem como a paletização de todos os insumos, elevadores de carga, cremalheiras e guindastes.

A mecanização é fundamental também em obras pesadas como estradas, pontes, barragens e hidrelétricas, na produção de pré-moldados, de formas e armações, produção de britas, solos, concreto, asfalto, etc.

Com base em estudos realizados pela MRV Engenharia, a compra de equipamentos de grande porte, como gruas e elevadores de carga, se paga em cinco anos de uso. Já os equipamentos menores garantem o retorno do investimento inicial entre dois e três anos de uso. A redução da mão de obra necessária é variável, mas os estudos mostram que é possível se obter uma redução considerável no uso de mão de obra de serventia de material, variando de dois homens, no caso da minigrua, a 20 homens no caso da grua grande, por exemplo.

Controle dos recursos humanos

A tecnologia, em especial a área de softwares que administra a informação e suas aplicações, tem sido uma das grandes aliadas das construtoras. É o que afirma José Roberto Stagliório, que comanda há 28 anos a Inforcomp, empresa que desenvolve produtos inteligentes voltados à otimização de resultados na construção civil, como relógios e software de ponto e sistema de controle de acesso a canteiro de obras.

A Inforcomp possui uma carteira de clientes expressiva no setor da construção civil. Entre as construtoras que optaram pelos seus serviços estão a Gafisa, Even, Cyrela, BKO, Living, WTorre, Trisul, Inpar, Adolpho Lindenberg, MSB Sanchez, Matec, RMA, Camargo Corrêa, Klabin Segall e várias outras.

O controle de acesso permite saber quem está na obra em cada momento. Além de um banco de dados central para acesso integrado e remoto às informações, o sistema prevê um backup do banco de dados na própria catraca. "Informa quantos operários de cada especialidade, por empreiteira, estão presentes", conta Stagliório. O sistema também integra dados relativos à gestão dos funcionários, como treinamentos e retirada dos EPIs (equipamentos de proteção individual). E ainda permite controlar o fluxo de trabalhadores de cada área, segundo suas especializações, à medida que a obra avança, adaptando os números de cada especialista ao estágio das obras.

Assim, é possível avaliar se o número de operários especializados em carpintaria, ou em armações metálicas das estruturas de concreto, é compatível com o que o canteiro exige naquele momento.

Segundo Paulo Renato Bomfim Bezerra, Encarregado Administrativo da Living Construtora,  que tem catracas eletrônicas e o software instalados em suas obras, o controle de acesso e o ponto eletrônico em canteiro de obras é importante, porque permite controlar todo o efetivo por função. “É bem mais fácil para o preenchimento do diário de obra e também para evitar um possível problema trabalhista com o colaborador", afirma Paulo.

Inicialmente, é feito um cadastro do funcionário no sistema. É entregue um crachá para o colaborador com foto, de uso obrigatório para liberar a catraca. Algumas informações permitem ou bloqueiam a entrada na obra, por exemplo, validade do atestado de saúde. Se o atestado estiver vencido, a catraca acusa e impede o acesso. Esse sistema proporciona maior controle na documentação e entrada e saída dos funcionários.

Nos anos 80, a indústria da Construção Civil foi campeã em processos trabalhistas, enfrentando dificuldades de administrar grande quantidade de pessoas partiu para terceirização. Mas o que parecia ser um grande "achado" causou outro transtorno, pois muitas terceirizadas nem sempre cumpriam suas obrigações trabalhistas, transferindo-as para as construtoras através do que juridicamente é conhecido como "Culpa Solidária", em processos onde figuram como corresponsáveis.

Além de selecionar melhor suas parceiras, as construtoras podem se livrar dessas dores de cabeça adotando mecanismos de fiscalização da documentação e da situação jurídica dos contratados pelas terceirizadas.

Sai a prancheta, entra o celular

A Andrade Gutierrez, uma das maiores empresas de engenharia e construção da América Latina, foi a primeira em seu setor a desenvolver e utilizar um sistema de apontamento de produção embarcado em telefones celulares no Brasil. Desde 2009, os apontamentos de campo, que eram feitos em fichas de papel, passaram a ser realizados via celular. Essa inovação tem proporcionado uma gestão mais eficiente dos equipamentos e da mão de obra em canteiros de todo o Brasil.

“Chegamos à era da gestão em tempo real dos apontamentos. Os operadores digitam as informações no celular, os dados são transmitidos aos servidores da AG, e o gerenciamento online pode ser feito via painéis nas obras, atualizados a cada 50 segundos. É extremamente dinâmico”, comenta o engenheiro da Controladoria Rodrigo Fernandes de Barros.

O controle diário de desempenho de equipamentos e mão de obra feito por meio de fichas de papel era lento, caro e com qualidade inferior à desejada. Havia grande defasagem de desenvolvimento nos processos que envolviam os dados de apontamento dos canteiros de obra, além da demora no recebimento da informação e ausência de confiabilidade. As fichas chegavam à área de controle da obra com defasagem aproximada de dois dias, visto que as mesmas deveriam ser preenchidas, recolhidas e enviadas ao escritório da unidade. Além disso, a qualidade da informação não era satisfatória.

Os apontamentos em papel eram difíceis de serem lidos e conservados, eram escritos manualmente pelos apontadores e encarregados e o ambiente em que as fichas eram usadas favorecia a degradação. Outro problema: a quantidade de informação e de papel era muito grande, o que demandava a utilização de salas inteiras para arquivo de fichas antigas e novas.

Em grandes obras, como a do Comperj - Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, por exemplo, as atividades ocorrem sem interrupções, 24 horas por dia, em três turnos. Como são aproximadamente 800 equipamentos em atividade, o fluxo de fichas demandava alto investimento em papel, bem como em mão de obra para calcular e alimentar os sistemas corporativos. Para mudar esse cenário, a Andrade Gutierrez passou a buscar soluções para aperfeiçoar o controle de dados de suas obras. Tomou conhecimento de uma solução desenvolvida no Brasil pela Simova, empresa pioneira em tecnologia e mobilidade convergente, para o setor sucroalcooleiro, e apostou que o sistema adotado pelas usinas poderia também ser customizado para as atividades da construtora. E assim foi dado início ao projeto que culminou na criação de um software chamado ConstruMobil em parceria com a Simova.

Foram analisados, em princípio, os impactos da nova ferramenta para minimizar pontos críticos e a adaptação dos operadores ao novo sistema. Como o processo é auxiliado por aparelhos celulares, tecnologia muito presente no cotidiano das pessoas, a introdução do sistema às obras foi facilitada e bem aceita.

“Em seis meses, usando nosso produto voltado para usinas como base da solução, customizamos e implantamos o ConstruMobil na Andrade Gutierrez. Com a nova ferramenta, os usuários da AG inserem as informações no sistema instalado no aparelho celular por meio de códigos de atividade pré-estabelecidos, as quais são validadas e enviadas imediatamente aos servidores da construtora. Os dados são visualizados em painéis (telas de LED/LCD) nas obras com atualização imediata”, explica Fábio Calegari, diretor comercial da Simova.

Resultados surpreendentes

A implantação da solução ConstruMobil na Andrade Gutierrez proporcionou diversos ganhos, a começar pela rapidez e qualidade na coleta e transmissão de informações sobre a produção nos seus canteiros de obra. A gestão online dos dados permite atuações objetivas, eficientes e imediatas sobre perdas gerenciáveis, resultando em ganho de produtividade e também financeiro, além de redução de custo de materiais de apoio para o apontamento, como folhas, canetas e pranchetas.

A solução gera ainda redução de custo com mão de obra, pois é possível eliminar ou diminuir a função dos apontadores e auxiliares de controle, além da eliminação de retrabalho e horas extras na área de gestão das obras, pois o processo antigo necessitava do cálculo e digitação de todas as fichas.

O problema da falta de qualidade do controle manual também foi resolvido, já que o sistema via celular trabalha com códigos numéricos e filtros que bloqueiam possíveis erros. Outra vantagem é que a validação de dados e o cruzamento de informações são feitos no momento da digitação, diminuindo o risco de erros no apontamento de informações.

Todo o processo de apontamento pelo ConstruMobil é mais seguro. Há filtros que limitam os serviços dos equipamentos e equipes, assim podendo restringir as opções que cada usuário pode apontar. O meio ambiente também é beneficiado pela nova solução com a eliminação da grande utilização de papel para as fichas de apropriação.

Apenas nas obras do Comperj, o ConstruMobil proporcionou ganhos importantes na eficiência média dos equipamentos, o que representa um aumento de quase 110 mil horas trabalhadas. A expectativa é implantar o ConstruMobil em todas as obras da Andrade Gutierrez no Brasil e no exterior. Mais de 15 obras da Andrade Gutierrez, já usufruíram ou usufruem atualmente da tecnologia.

Novidades em Santo Antônio

O canteiro de obras da Usina Hidrelétrica Santo Antônio também conta com a tecnologia de ponta, no caso do iPad, que, combinada com a caneta digital O’Pen, possibilita à gerência de Saúde, Segurança do Trabalho e Meio Ambiente (SSTMA) da Santo Antônio Energia acompanhar, em tempo real, os registros gerados em campo durante a execução dos trabalhos.

Esse sistema consiste na gravação automática de tudo que é escrito pelos técnicos em campo durante a aplicação de check-list e registro de desvios e depois descarregados no sistema através do bluetooth do celular ou por um cabo USB. Após isso, o servidor decodifica os dados manuscritos, digita, tabula e transforma em gráficos com indicadores gerenciais que podem ser visualizados por toda a gerência de SSTMA da concessionária por meio do uso do iPad em qualquer lugar que eles estejam. O uso dessa tecnologia é inédito na construção de hidrelétricas no Brasil.

Com o sistema SSTMA, o trabalho de campo que antes era realizado por um técnico que utilizava caneta esferográfica comum e formulários de check-list para depois ser digitado, tabulados e só então transformados em informações foi informatizado, o que possibilita a otimização de tempo e qualidade do trabalho. Agora cada técnico trabalha com uma caneta inteligente que possui tinta, mas que escreve em um papel especial. Ao término da inspeção, os dados gravados nas canetas, são descarregados no servidor que decodifica as informações manuscritas, tabula e transforma em gráficos com indicadores gerenciais, que ficam disponíveis para as tomadas de decisões pela gerência.

"Com o sistema SSTMA, a produtividade da equipe cresceu em 30%, aumentando também a confiabilidade dos dados e a rapidez de identificação do problema e do acompanhamento das ações de melhoria", explica o gerente de Saúde e Segurança do Trabalho da Santo Antônio Energia, Marcelo Pires Ferreira Prado.

Originalmente, o sistema foi desenvolvido para elaborar relatórios. Diante do interesse da Santo Antônio Energia, a empresa adaptou o software para a demanda proposta. Para isso, foi desenvolvido aproximadamente 40 formulários usados nas inspeções para coleta de dados e testes entre novembro de 2009 e janeiro de 2010, quando foi implantado definitivamente.

"O destaque é que é possível o monitoramento em tempo real das áreas de trabalho e onde está cada frente de trabalho. Acredito que a Santo Antônio Energia é a primeira empresa a usar este tipo de tecnologia voltada à segurança do trabalho", assegura Prado.

Uso de formas em alta

Com a necessidade de otimizar recursos vem crescendo, nos canteiros de obras em todo o Brasil, o uso de formas para concreto e escoramentos na construção civil. Neste ano, este mercado tem demonstrado forte impulso, graças à retomada de investimentos, depois do medo de uma crise causada pela desestruturação das economias na Europa e Estados Unidos. Já é possível perceber um significativo aumento no volume de aquisições pelas construtoras, através do baixo estoque disponível, apresentado pelas empresas associadas à Abrasfe - Associação Brasileira de Formas e Escoramentos.

Isso é o que informa Harold Miller Junior, presidente da Abrasfe, entidade que congrega as 15 maiores empresas do mercado, responsáveis por 85% da produção e venda desse segmento no País. Segundo ele, os associados da Abrasfe são responsáveis, atualmente, pela geração de nada menos que dez mil empregos diretos. As formas de concreto estão presentes em obras de hidrelétricas, pontes e viadutos, metrôs, refinarias e polos petroquímicos, além das plantas industriais.

Miller informa que as grandes obras de infraestrutura, realizadas em várias partes do Brasil, são hoje grandes consumidores desse tipo de equipamento e dessa tecnologia. Os grandes projetos habitacionais, estimulados pelo programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, também impulsionaram o setor no País. Essa é uma nova tendência, buscada pelas empresas que atuam no mercado. Com ela é possível fazer casas e construções verticais de até cinco pavimentos com paredes feitas todas em concreto, sem depender de equipamentos de elevação e com forte redução da mão de obra. Com esse método construtivo de parede de concreto, é possível ainda agilizar a construção, com grande economia de custos e redução dos desperdícios de matéria-prima.

A indústria de formas não para e está investindo em novas tecnologias e equipamentos e aprimoramento das equipes técnicas para apoio ao cliente.

 

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